O inverno das águas grandes: a hidroeletricidade portuguesa tirou a desforra
As tempestades em série do início do ano encheram as barragens portuguesas e empurraram a produção hídrica para níveis que a seca dos anos anteriores fizera parecer história: o grupo EDP reportou mais 4% de produção no primeiro trimestre, e as boas reservas de água acompanharam o sistema até ao verão. O contraste com a Áustria seca mostra porque a Europa elétrica precisa dos dois climas.
Redação EuroEnergy · 1 min de leitura
No léxico energético português, a palavra «seca» ocupara uma década inteira. Este ano, os boletins hidrológicos recuperaram um termo quase esquecido: excedente.
O inverno que encheu as albufeiras. As depressões atlânticas em série — tempestade atrás de tempestade, de janeiro a março — trouxeram precipitação muito acima da média e subiram as reservas das barragens para níveis confortáveis. A produção hídrica carregou o primeiro trimestre: o grupo EDP reportou um crescimento de 4% da produção total, puxado exatamente pela água que nos anos de seca faltava.
O efeito de sistema. A hidroeletricidade abundante trabalhou em tandem com o solar recorde: a água cobriu as noites e as manhãs, o sol os meios-dias, e o gás foi empurrado para a margem do mix — daí os meses com três quartos de renováveis e as muitas horas com preços de nada. A bombagem — do Alqueva ao novo sistema do Tâmega — teve a matéria-prima ideal: meios-dias baratos para armazenar, noites caras para servir.
A nuance contabilística. O paradoxo dos produtores: muita água significa preços baixos — a hidroeletricidade corrói o seu próprio preço de venda. Para os consumidores, porém, a combinação água+sol foi o melhor deflator da fatura grossista dos últimos anos.
A lição continental. No mesmo ano em que os Alpes austríacos viviam o ano mais seco de um século, o Atlântico enchia as barragens ibéricas. Os climas da Europa não se sincronizam — e é exatamente esse o argumento para interligações mais grossas: o excedente de um pode cobrir a seca do outro, se houver por onde circular.
A hidroeletricidade portuguesa, em tempo real, na página do país.
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